sábado, 23 de setembro de 2017

Reversão sexual? Cura gay? O que a psicologia fala sobre isso

Essa semana houve a repercussão da notícia sobre a autorização para tratamento de homossexuais no Brasil. Esse assunto movimentou bastante o meu Facebook e pude perceber a opinião de vários psicólogos sobre o assunto. Algumas posições me espantaram, pois ainda colocam em dúvida o direito individual do sujeito de não aceitar sua sexualidade diferente da maioria.

Diante dessa polêmica é importante que algumas coisas fiquem claras sobre o que a psicologia tem a oferecer em termos de tratamentos. A psicologia não possui um método validado para alterar a direção da libido de uma pessoa. Em outras palavras, não existe uma maneira validada de modificar o desejo sexual de uma pessoa. Num processo terapêutico comportamental a pessoa aprende a entender seu comportamento, as possíveis razões de seus padrões de comportamento e pode definir novos repertórios de comportamento para o futuro.

Esse novo repertório que ela poderá desenvolver depende muito da sua história passada e de como o ambiente vai reforçar ou punir as ações que estão sendo desenvolvidas. É um processo consciente onde o psicólogo ajuda o paciente na emissão de novas ações e na manutenção dessas ações no presente e futuro.

Diante dessa explicação é importante saber os limites dessa transformação individual. A psicologia não possui métodos milagrosos, as mudanças que ocorrem num processo de psicoterapia dependem de várias variáveis da vida do sujeito. O psicológico é um agente reforçador e aplica conhecimentos e técnicas que ajudam a direcionar as ações necessárias para a mudança desejada.

Neste contexto o poder de mudança não está no psicólogo, está no sujeito que inicia sua trajetória. Como psicólogos somos guias importantes e interferimos de maneira significativa na emissão de novos comportamentos.

Como interferimos de maneira significativa com teorias e técnicas, precisamos acima de tudo respeitar os interesses do paciente. Psicólogos não podem possuir preconceito, induzir movimentos que não estejam de acordo com os objetivos do paciente e nem prometer cura para doenças. A maioria das situações psicológicas  que causam sofrimento, confusão mental e prejuízo social são descritas na psiquiatria como transtornos e não como doenças. Esses transtornos são tratados com medicações e a psicoterapia ajuda o paciente a mudar comportamentos que estão reforçando seu sofrimento. Nos próprios manuais existe o aviso para avaliar se este quadro está causando sofrimento e interferindo na vida social do sujeito para justificar uma intervenção.

Temos uma série de limitações nessa jornada. Temos muito chão pela frente para decifrar o ser humano. A ciência da psicologia ainda precisa avançar para resolver causas realmente graves e importantes como a violência, a xenofobia, os desvios de caráter, parafilias entre outros dilemas da psique humana.

Reforço que questões relacionadas ao desejo, a libido, não possuem técnicas validadas para serem aplicadas e mesmo que existissem precisaria de uma reflexão profunda sobre em quais casos aplicar. Existem quadros de desvios sexuais sérios e que não estão sendo alvo de preocupação da sociedade. Nem toda diferença é problema. A sociedade precisa melhorar seu entendimento dessa questão para não confundir diferenças com transtornos.

A psicologia como ciência do comportamento humano vai além da visão meramente biológica, pois o comportamento é também social e cultural. Um psicólogo precisa ter uma visão ética e filosófica ampla para saber que não estamos lidando apenas com a retirada de uma verruga da pele, mas estamos lidando com mudanças de raciocínio, de postura, da forma de interagir com o meio. É uma grande responsabilidade compartilhada (psicólogo e paciente) e que ainda terá um impacto social.

Todos têm o direito de mudar, mas todo psicólogo precisa ter uma formação sólida e ética para ajudar o indivíduo a refletir sobre as razões da sua mudança e as consequências pessoais e sociais envolvidas nisso.

Nunca devemos trabalhar para reforçar o medo, a vergonha, apenas para adequar o sujeito a viver num ambiente opressor e violento. Precisamos, psicólogos e pacientes, achar um caminho inteligente onde a pessoa possa se perceber e se valorizar como um indivíduo e conviver pacificamente em sociedade.

Encontrei esse vídeo da Loui Ponto maravilhoso que resume perfeitamente a questão da homossexualidade e sobre a polêmica dessa semana. Parabéns para essa menina corajosa e inteligente que está ajudando muitas pessoas a perceberem que podem aceitar suas diferenças e a valorizarem suas vidas sendo indivíduos saudáveis e felizes.

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